sábado, 7 de dezembro de 2013

Crónica de Sónia Monteiro (Convidada nº3)

1Em 2012 resolvi voltar à GR, depois de uma paragem de um ciclo olímpico. Ocorreu numa altura em que necessitei de fazer uma pausa por não estar satisfeita com o rumo que a modalidade estava a levar.

E algo me chamou de novo, a esta modalidade mágica, bela, intensa, talvez uma mudança no espírito do novo código, com mais equilíbrio entre a sua vertente artística e técnica.

Comecei por fazer a Academia FIG em Setembro 2012, curso nacional de Juízes em 2013, uns treinos no clube que sempre representei, o Boavista FC, e eis que em Junho fui contactada, pela Prof.ª Ida Pereira, através da Associação Nacional de Treinadores, para orientar a seleção nacional de conjuntos de Angola! Foi uma boa surpresa mas o projeto seria a preparação das ginastas em dois meses, para o Campeonato do Mundo em Kiev em fim de Agosto desse mesmo ano. Os treinos seriam em Portugal, e a equipa ficaria a estagiar em terras lusas antes de viajar para a Ucrânia.

Senti que seria o meu retorno aos treinos, às viagens, e a uma vida que conheci antes, enquanto ginasta, treinadora e juiz. Aceitei com satisfação poder representar uma seleção sem experiência, que iria pela primeira vez a um Campeonato do Mundo, e como o primeiro conjunto de África!

5O primeiro problema foi logístico: onde treinar bi-diário com as condições exigidas pela nossa modalidade, onde ficar alojada a equipa, como transportar as ginastas para o local de treino, onde realizar refeições... E depois de ouvir muitos nãos, de não conseguir apoios em tão curto espaço de tempo, de conhecer orçamentos incomportáveis, surgiu a possibilidade de ficar na estalagem de Sangalhos, e treinar nas melhores condições do país, o Centro de Alto Rendimento da Anadia! Agradeço ao Lucas Gonzales ter abraçado este projeto comigo.

Mais problemas foram então surgindo, um mês passado e nada de seleção. Cheguei a pensar que tinham desistido! Problemas de vistos, e outros, atrasaram todo planeamento já realizado. Em fim de Julho, chega a equipa, 6 meninas lindas, cheias de vontade de participar nesse evento, mas sem saber muito o que lhes esperava..
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A falta de hábitos de treino, o facto de serem representantes de três cidades diferentes de Angola, a pouca vida desportiva de algumas tornaram a tarefa mais complicada. 
A falta de recursos materiais também, pois viajaram sem aparelhos, para treinarmos durante Agosto (mês onde quase todos fazem férias em Portugal).

O CAR disponibilizou algum material, o Boavista FC outros, e o AveiroGym, a quem também agradeço. Com o passar do tempo, as encomendas feitas aos vendedores de França e Itália foram chegando.

Os treinos revelaram ser duros para este grupo, e as lesões começaram a surgir ao fim da primeira semana; também neste mês, duas fizeram entorses no tornozelo com alguma gravidade (tiveram sem poder treinar durante uma semana). Por momentos não tive as 5 ginastas para treinar juntas!

Mas fruto de trabalho, da vontade, de muito suor e algumas lágrimas, lá conseguimos ter duas coreografias, uma com 10 maças e outra com 3 bolas e 2 fitas.

Classificações para esta prova resultaram ser uma utopia, pois esta devia de ser a seleção que menos treinou e com as ginastas mais inexperientes da competição.

13Contamos com o apoio de várias pessoas, que apareceram nos nossos treinos, sempre a dar força, ajuda, sugestões, e queria realçar os nomes daqueles que mais contribuíram para me ajudar a mim, a Sara Monteiro, Ida Pereira, Patrícia Jorge, Lourenço França, e Prof. Botelho. Sem as palavras e presença destes acho que teria desistido.

A aposta foi no investimento aos nível da estética e da alegria, na apresentação e execução das duas composições.

Assim elaboramos uns fatos muito bonitos, que elas pudessem sentir orgulho de usar, e tentamos passar uma imagem de satisfação e alegria, pois muitas eram as russas, ucranianas, portuguesas, que por mais treino, e anos de prática que tivessem, não iriam estar naquele lugar.
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O resultado final foi surpreendente. A emoção de estar presente num país frio e ver o público a fazer uma claque apenas igualada às suas compatriotas, todos a aplaudir pela nova equipa numa prova do nível mais elevado, é algo de que recordarei para sempre.

Ficamos em último, mas ninguém teria conseguido fazer melhor. Senti-me orgulhosa destas ginastas à pressa, palancas negras cheias de garra e determinação para representar Angola.
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Este foi o primeiro passo duma nova seleção, que já está com vista aos Jogos Olímpicos. Sonhos muito altos, mas que com a devida preparação, recursos e vontade, tem capacidade para lá chegar.
Grata por fazer parte deste projeto pioneiro. Grata também, por poder partilhar aqui a minha experiência com vocês.

Dezembro de 2013
Sónia Monteiro

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