sábado, 1 de novembro de 2014

Crónica de Gabriela Salvador (Convidado nº9)

1Testemunho do 33º Campeonato do Mundo de Gr – Izmir

Por ser um tema ainda muito atual e me ter marcado tão positivamente, resolvi relatar um pouco dos meus sentimentos e emoções deste Campeonato do Mundo em Izmir.

Já ajuizei e acompanhei várias vezes ginastas da Seleção Nacional em Torneios Internacionais e Taças do Mundo, mas este foi o meu primeiro Campeonato do Mundo como juiz, como tal uma experiência nova e desconhecida.

Comecei por conhecer os vários locais de treino, acompanhando as ginastas individuais, Carolina Coelho, Rafaela Valente e Tânia Domingues e sua treinadora Nina Shevts nos seus treinos bi-diários. Estas meninas tão especiais, mesmo quando estavam cansadas ou tristes, quando executavam os seus exercícios com falhas e tinham que repetir vezes sem conta, tinham sempre um sorriso nos lábios, dedicação e empenho.

Em nenhum momento estas ginastas se queixavam do quer que fosse, para elas o importante era treinar bem para que nada falhasse.
Só no dia que antecedeu a competição pudemos ver o local de competição, muito bem decorado e acolhedor.

Seguiu-se a a instrução das juízes para a prova individual, apresentada pelo Comité Técnico da FIG. Após esta instrução e depois das senhoras do Comité Técnico terem transmitido que se uma juiz cometesse erros graves no ajuizamento, no dia seguinte não iria ajuizar. Os nervos e o stresse começaram a surgir em todas as juízes envolvidas.

2Eu que não sou diferente das outras juízes comecei a ficar muito preocupada com a “ameaça” de poder ser “castigada” e a pensar que poderia não ser capaz, que tinha algumas dúvidas, que tinha muito medo de cometer erros …

Durante parte dessa manhã e quase toda a tarde eu e as restantes juízes estivemos a ajuizar o treino de pódio de quase todas as ginastas em competição. Após o ajuizamento “discutíamos” as notas finais para tentarmos ajustar critérios. Fui ficando um pouco mais confiante, no entanto o medo de falhar era enorme.

Para além da minha preocupação de não cometer erros, queria muito que as nossas ginastas portuguesas fizessem bem, sem falhas, mas isso não dependia de mim… Também sabia o quanto elas e a sua treinadora queriam que isso acontecesse. Era um misto de sentimentos difícil de digerir.

Já não era a primeira vez que me questionava “mas porquê que estou neste stresse?”, “tenho tantas saudades dos meus filhos, nunca mais venho”. Por outro lado sabia que adorava estar ali e que sempre tinha sido um dos meus objectivos, ajuizar um Campeonato do Mundo. O que vale é que estes desabafos não passavam de momentos de pânico e de medo de errar. Nestes momentos de tanto stresse o apoio e companheirismo das minhas amigas Eunice Lebre e Catarina Leandro foram cruciais para perceber que iria ser capaz de realizar o meu trabalho de forma correta e confiar nos meus conhecimentos.
Começava então a competição de Individuais e as mães das ginastas portuguesas muito ansiosas na bancada, com bandeiras de Portugal a torcerem pelas suas filhas e a gritarem por Portugal!

3A nossa Carolina foi a primeira ginasta apresentar-se, no seu exercício de arco, seguiram-se a Rafaela e a Tânia. Todas elas entraram em praticável muito confiantes, no entanto todas tiverem falhas de queda de aparelho, próprias de quem não tem muita experiência
internacional. Apesar destas falhas e das notas finais não serem as desejadas, as nossas ginastas chamaram a atenção das juízes e já havia quem dissesse que Portugal era dos países que mais tinha evoluído e surpreendido.

Ao longo da competição a prestação de toda a equipa portuguesa foi melhorando, todas as nossas ginastas conseguiram realizar os seus últimos exercícios em competição sem falhas.
Segue-se uma competição para as 24 melhores ginastas em competição, onde as nossas ginastas já não se incluíam, mas que a minha responsabilidade continuava a ser muito grande, pois desta prova iria resultar a nova Campeã do Mundo!

E sem dúvida, Yana Krudyatseva consagrou-se Campeã do Mundo, uma ginasta extraordinária, com um nível técnico elevadíssimo.

O ambiente entre as juízes era já mais afável e descontraído, pois já eram muitos os dias de convívio. Como as saudades de casa começavam a “apertar”, durante as pausas, nós juízes partilhávamos um pouco da nossa vida pessoal, mostrando no telemóvel as fotos dos nossos filhos, e falando um pouco da nossa família.

4
Mas este Campeonato do Mundo ainda não tinha acabado, começava agora a prova de Conjuntos. Esta competição era decisiva para muitos países, pois de 30 Conjuntos em competição, apenas 24 se iriam apurar para o próximo Campeonato do Mundo a realizar em Estugarda em 2015. Como é óbvio todos os conjuntos tinham como objetivo o apuramento, e Portugal sabia que esse apuramento seria possível se não cometessem faltas graves.
Todos os pormenores eram importantes, antes da delegação portuguesa de conjuntos chegar a Izmir, já a sua treinadora estava preocupada e a questionar-me como estava disposto o praticável, se as uniões estavam na vertical ou na horizontal. Pode não parecer ter importância, mas tudo era importante para que esta competição corresse bem.

5Num único dia de competição, Portugal e os seus países concorrentes realizaram os seus exercícios de 10 Maças e Bolas e Fitas. Portugal começou por realizar o exercício de Bolas e Fitas, passagem essa, que eu estava ajuizar, com duas quedas de aparelho. Como devem calcular o meu nervosismo era enorme, no entanto, nada estava perdido, os outros países que se aproximavam de nós, na tabela classificativa também tinham falhado, e se Portugal executasse o exercício de 10 Maças sem falhas, ainda tudo era possível…
E assim foi, Portugal realizou um exercício de 10 Maças com muita confiança e determinação, sem falhas e conseguiu um fantástico 22º lugar.

Posso-vos dizer que foi sofrer até ao fim, porque Portugal foi dos últimos países a realizar a sua passagem, e ainda tudo estava em aberto, pois na primeira passagem estava em 25º lugar. Felizmente a alegria de ver o 22º lugar no placard foi muito grande. Estava assim cumprido um dos objectivos desta competição para as ginastas e equipa técnica do Conjunto português.

Esta foi sem dúvida a competição mais marcante na minha vida de juiz, há já alguns anos não sentia tanto orgulho numa Equipa Portuguesa.

Novembro 2014
Gabriela Salvador

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